A Resistência Mora Aqui

Em Janeiro de 2017, viajámos para Moçambique com o que pensávamos ser um plano detalhado e bem organizado para um mês e meio de entrevistas. Três dias depois, o caderno onde tínhamos despejado os nossos desígnios foi trocado por folhas em branco, e as certezas iniciais foram substituídas pela estrada que se abria à nossa frente. A mesma estrada que, primeiro, nos levaria a atravessar as paisagens cinematográficas do Norte e, mais tarde, a Maputo, onde entre o bulício de uma cidade em mudança e as tardes tórridas de um último andar aberto à periferia, complementámos o trabalho com entrevistas a representantes de empresas e do Governo.

Como dizíamos, tínhamos um plano, mas quase nada correu como antecipávamos: ao terceiro dia de reportagem, 23 de Janeiro, todas as entrevistas pré-agendadas tinham ficado sem efeito e o jornalista local que nos deveria acompanhar durante o trabalho no Corredor de Nacala desistiu mesmo na véspera da partida. Não querendo perder mais tempo, lançámos-nos à estrada.

No momento em que começávamos a duvidar da sorte, soubemos que nessa manhã haveria uma reunião de resolução de conflitos em Napai II, uma aldeia no distrito de Mecuburi, província de Nampula, a 80 km de onde nos encontrávamos. Os camponeses acusavam a empresa norueguesa Green Resources de ter ocupado mais terra do que a que lhe fora cedida e o administrador do distrito iria estar presente, a moderar a conversa entre os camponeses e a empresa. Ainda no processo de repensar o plano inicial, pareceu-nos uma oportunidade demasiado boa para ser desperdiçada. Invertemos a rota programada e entrámos finalmente na trajectória da estória que procurávamos.

Quando chegámos a Napai II, dezenas de homens e mulheres estavam dispersos numa roda. O representante da comunidade, Francisco Chicompa, olhava para as folhas que tinha entre mãos e ensaiava uma última vez - como com receio de que lhe faltasse a voz no momento de falar - a leitura da carta onde estampara as queixas da comunidade. As caras vincadas da massa de gente mostravam pressa para, em voz alta, libertarem os muitos lamentos que as iam consumindo. Tinham ânsia de ser ouvidas mas o então administrador do distrito, Hilário Anapacala, parecia mais preocupado com a presença inesperada de “pessoas da Europa” e de “moçambicanos com capa de moçambicanos”.

O que se passou em seguida pode ser visto aqui. Quanto a nós, minutos depois do fim da reunião, fomos abordados por polícias armados que nos queriam apreender as câmeras e, após muita negociação, nos exigiram que apagássemos todo o material recolhido. Acabámos a manhã sentados no Comando Distrital da Polícia de Mecuburi a explicar o porquê da nossa presença ali. Tínhamos estória.


O Verão de 2016 começava a bater à porta quando uma conversa regada a vinho tinto se tornou num desafio. Boaventura Monjane, jornalista e activista moçambicano, e Sofia da Palma Rodrigues, jornalista portuguesa, partilhavam as aulas do programa de doutoramento em Pós-Colonialismos e Cidadania Global, no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.

- “São os agricultores familiares que produzem a maioria dos alimentos consumidos no meu país, mas os pequenos camponeses têm sofrido imensas pressões para abandonarem as terras. As grandes empresas agrícolas prometem-lhes emprego, construção de escolas, centros de saúde e as pessoas vêem ali uma oportunidade. Mas depois, o que está a acontecer, é bem diferente: a diversidade de alimentos que sempre plantámos está a ser substituída por culturas de rendimento e os camponeses perderam a sua autonomia. Devias vir a Moçambique fazer uma reportagem sobre Land Grabbing.”

- “Land quê?”

- “Land Grabbing”! Significa usurpação de terra e é a expressão usada para definir a aquisição de terrenos a larga escala feita por privados e grandes corporações às populações rurais de países em desenvolvimento. Há acordos dúbios e, muitas vezes, ilegais. O tema não é novo, já se falou muito sobre isso, mas a abordagem poderia ser diferente..."

Uma pesquisa rápida revela-nos que um terço da população moçambicana sofre de insegurança alimentar e que o Governo não só apoia os grandes investimentos agrícolas como defende o seu contributo no combate à fome no país. Enquanto isso, vários relatórios - de Organizações Não Governamentais para o Desenvolvimento (ONGD), de Organizações da Sociedade Civil, de redactores independentes da União Europeia - dão conta da marginalização a que os camponeses e pequenos agricultores estão sujeitos, mesmo sendo os responsáveis pela produção de 90% dos alimentos consumidos no país. Na última década, foram pressionados a deixar as casas onde viviam e os terrenos que cultivavam, mas os relatórios e peças jornalísticas sobre o tema poucas vezes os apresentam com uma voz activa. São aqueles de quem todos falam mas a quem raramente é dada oportunidade de se expressarem. “Vai onde está o silêncio e diz alguma coisa”, a máxima da jornalista Amy Goodman acabaria por tornar-se a linha guia desta investigação.

A ideia foi contar uma estória a partir da base, de baixo para cima. Começar por ouvir os camponeses que vivem nas regiões onde as corporações agrícolas se foram instalando, passar alguns dias com eles, e, só depois, entrevistar os representantes das empresas e também do Governo. Isso permitiria confrontá-los com situações concretas, com estórias reais de pessoas de carne e osso, uma perspectiva diferente daquela a que conseguimos aceder através dos documentos oficiais e notícias sobre o tema.

“Se é para fazer isso, temos de ir para o Corredor de Nacala, no Norte de Moçambique. É uma região atravessada pelas províncias de Cabo Delgado, Niassa, Nampula, Zambézia e Tete, das mais povoadas e férteis de Moçambique e aquela onde a corrida pela posse da terra é mais voraz”, definiu o Boaventura Monjane.

“É com grande prazer que anunciamos que o vosso projecto ganhou uma bolsa no valor de 10 mil euros.” Em Julho de 2016, recebemos o ‘“sim” do Journalismfund, uma organização sem fins-lucrativos que apoia projectos de jornalismo de investigação. A estes 10 mil euros, somaram-se mais 5000 de uma bolsa da Free Press Unlimited - uma fundação holandesa que apoia projectos de jornalismo - à qual a Emma Lesuis (a videógrafa que, juntamente com o Diogo Cardoso, captou as estórias) candidatou o projecto. Com dinheiro suficiente para cobrir os bilhetes de avião e os gastos logísticos, partimos para Moçambique com a esperança de conseguir o restante financiamento após a publicação do trabalho.

Napai II, Ruace e Nakarari são os palcos principais desta reportagem. Uma rota de viagem traçada pelas pessoas e estórias com que nos fomos cruzando. Uma rota de viagem desenhada diariamente com base nas informações a que íamos tendo acesso.


Depois de sermos “liberados” do Comando Distrital da Polícia de Mecuburi, fizemos dois ou três telefonemas e decidimos continuar na província de Nampula. Dirigimo-nos para Malema, onde Manuel Massana, Presidente da União Distrital de Camponeses da região, nos aguardava. Duas horas de conversa passadas, Manuel falou-nos de Nakarari, “uma aldeia que recebeu os refugiados que foram obrigados a sair de Wakua, onde a empresa Agromoz se instalou”.

Em Nakarari, Agostinho Mcerneia, homem que desbravou à catanada o sítio onde construiu a sua casa e fundou a aldeia, desafiou-nos: “Vejam lá se conseguem entrar na Agromoz e entrevistá-los.” Na Agromoz, a directora de recursos humanos que aceitou falar, “mas sempre em off”, apontou-nos para a empresa Hoyo Hoyo, “essa sim, é que está a ter muitos problemas com a população da aldeia de Ruace”.

Em Ruace, encontrámos um grupo de pessoas esmagado pela impotência - a pedir ao Governo, a quem chamam de “pai”, para ir até lá ver aquilo a que estão sujeitos; a pedir-nos a nós, em quem identificaram um instrumento capaz de ampliar a sua voz, para ir a Maputo perguntar ao então ministro da Agricultura, José Pacheco, “porque não olha por eles, porque é que o ‘pai’ os abandonou”.

Em Maputo, depois de duas semanas a insistir com o gabinete de assessoria de imprensa do Ministério da Agricultura e Segurança Alimentar, finalmente nos confirmaram a entrevista com a vice-ministra. Luísa Caetano Meque responde a todas as perguntas com base num documento - projectado na parede - que o seu assessor vai escrevendo ao mesmo tempo que as questões são colocadas. Há estórias que não precisam de ficção.

No total foram mais de 40 entrevistas, 900 gigabytes de gravação e uma estória que sabíamos enorme para contar. Regressados a Lisboa, mergulhámos num caos de informação que teríamos de organizar numa narrativa consistente - que fosse, ao mesmo tempo, simples e apelativa, completa e inquietante.

O processo foi longo e, em alguns momentos, levou-nos ao desespero: escolher as citações, os vídeos, as fotografias que melhor ilustravam a estória que queríamos contar; ter de deixar - a contra-gosto - informação de fora para que a narrativa não desbordasse numa torrente sem rumo; escrever os textos; pensar as ilustrações, os mapas, os gráficos capazes de falar aquilo que as palavras e as imagens não conseguiam; compreender o que os entrevistados queriam mesmo dizer quando utilizavam expressões locais e encontrar informação de enquadramento importante; comunicar com designers e programadores; rever traduções (realizadas com o apoio da ONGD Grain para a tradução da versão em inglês); arquitectar um plano de publicação da reportagem noutros meios de comunicação.

Dizemos - meio a brincar, meio a sério - que este trabalho demorou mais tempo a nascer do que um filho. Mas nasceu. Queríamos, desde o início, contar uma estória com gente dentro, trazer uma realidade que “está lá longe” para perto. Com esta reportagem, apontamos um holofote para o Corredor de Nacala, colocamos um microfone nos intervenientes que ali actuam e esperamos ser capazes de fazer ecoar as suas vozes. De resto, apenas um desejo: gostaríamos que ao leres, veres e ouvires estas estórias, tenhas o mesmo prazer que tivemos em contá-las.

Diogo Cardoso e Sofia da Palma Rodrigues

Esta reportagem foi publicada com o apoio de




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